Hindhyra


Conheci recentemente uma fotógrafa e artista plástica angolana, a Hindhyra Mateta. Em 2008 ela foi vencedora do concurso de fotografia BESA Foto, que acontece todos os anos.

Ela é a fotógrafa oficial de um grupo no qual estou inserida, as Angolanas Naturais. As Angolanas Naturais, um grupo criado no Facebook, é uma plataforma de debates de âmbito sócio-cultural aberto a todas as pessoas que valorizam o uso do cabelo natural (sem químicos,  alisamentos, etc.). Poderão encontrar mais informação sobre o que é ser uma Angolana Natural no seguinte endereço: http://angolanasnaturais.wordpress.com

Parece-me que a Hindhyra tem a vida que eu sonhava pois trabalha com imagem e criatividade, coisa que ultimamente tenho tido muito pouco tempo para me dedicar.

Abaixo poderão ver o resultado duma entrevista que  lhe fiz e que julgo que dá para conhecê-la um pouco melhor. Agradeço-a por ter aceite ser a primeira profissional de fotografia que pude dar a conhecer aqui. Tenho a certeza que esta menina vai longe…

1. Apresenta-te

Sou a Hindhyra, nascida em Luanda há 27 anos e resido entre Luanda e o Lubango com perspectiva de me mudar para o Lubango.

2. O que é para ti ser fotógrafo?

É antes de tudo olhar com olhos de ver, ter sensibilidade, coragem, atrevimento, imaginação, atenção, respeito, amor, humildade, como tudo na vida, é preciso ser-se capaz de interiormente cultivar o máximo de virtudes possível. 

3. Porque escolheste esta profissão e quando isso foi? 

Trabalho em várias coisas e uma delas é a fotografia, estou para aí inclinada desde 2009 por nesta altura ter conseguido comprar a minha primeira máquina fotográfica profissional. Nesta altura era estudante trabalhadora e trabalhava numa área em que me sentia literalmente ‘’um peixe fora da água’’ também nunca sonhei em ser fotógrafa profissional, aconteceu tudo muito rápido, tive que deixar o emprego para dar seguimento aos estudos e foi nesta fase em que paulatinamente fui-me entregando mais à fotografia também graças ao facto de ter ganho o Prémio de Imagem e Fotografia do BESA (Banco Espírito Angola) em finais de 2008. Ter ganho este prémio foi sem dúvida o maior impulso à minha inclinação para a fotografia de forma mais séria, responsável, artística e profissional.

4. Tens algum tipo de formação em fotografia? 

Sim, participei em Luanda em quatro workshops de fotografia com excelentes fotógrafos, workshops ministrados em Luanda pelas embaixadas francesa, brasileira e portuguesa respectivamente. Pretendo fazer mais formações do género e até formações mais aprofundadas.

5.  Qual foi o teu percurso até agora? Que tipo de trabalhos já fizeste e em que trabalhos/projectos estás envolvida agora?

Até fiz trabalhos como fotógrafa de casamentos (apesar de não ser o que mais me atrai, mas é o que até agora permite-me arrecadar uns kwanzas consideráveis), trabalhei igualmente como fotógrafa de eventos corporativos (que definitivamente é o que menos gosto de fazer), como fotógrafa de eventos de entretenimento (destes já gosto mais), também fiz, faço e pretendo fazer sempre trabalho de voluntariado para algumas associações sem fins lucrativos e instituições de caridade, tive pequenas experiências em direcção fotográfica para cinema (algo de que gosto e que pretendo explorar e evoluir). Relativamente aos projectos tenho vários em aberto, ou seja foram iniciados mas ainda não estão terminados, são projectos que pretendem dar notoriedade à criatividade  característica de quem tem muitas carências, pretendem valorizar a capacidade inventiva destas pessoas, são projectos que envolvem angolanos em busca do pão do dia, angolanos que todos os dias se levantam e saem à rua com o objectivo de conseguir alguns trocos para sustentar a família, são projectos que pretendem dar a conhecer ao mundo o sorriso angolano apesar dos pesares. Recentemente envolvi-me num projecto que visa a valoriazação do cabelo natural no seio dos africanos e essencialmente  das angolanas e angolanos que desde tenra idade aprendem que o seu cabelo é ruim, é feio, é difícil de pentear, dá trabalho, é sinónimo de falta de higiene, de irresponsabilidade, e de um sem fim de coisas negativas. O projecto surje exactamente para mostrar que tudo isto são atitudes erradas e preconceituosas. Pretende-se mostrar a beleza da cabeleira natural e valorizar algo que nasce connosco e faz parte da nossa natureza. Eu dou o meu contributo através da fotografia.

6. Como descreves a profissão de fotógrafo em Angola actualmente? Existem muitas barreiras?

Para teres uma ideia, há dias fui a uma repartição pública pedir informações para adquirir um documento e ele disse que tinha que ter uma declaração de serviço e eu disse que não estava empregada em empresa nenhuma e que nem tinha uma empresa minha, que prestava serviços a terceiros e que outros mas trabalhava de forma independente. Então o senhor virou-se para a pessoa que estava comigo e disse: Ela não trabalha então não sei como é que vai conseguir o documento que precisa, como não trabalhava vai ter que pedir uma declaração à adminsitração comunal para que possa seguidamente pedir os documentos à repartição fiscal. Isso para dizer que as pessoas ainda não valorizam o tarbalho como deviam, tenho até familiares que perguntam porquê que eu não procuro emprego ‘‘ao invés de ficar só aí a tirar fotos’’ é exactamente esta a expressão que usam. Com relação às pessoas a quem prestamos o serviço, pensam sempre que o freelance pode trabalhar de graça, que tem sempre que cobrar o mínimo possível e que pode sempre oferecer as fotos. É realmente uma situação muito complicada mas felizmente exitem algumas pessoas que valorizam.

7. Consideras o mercado da fotografia no País maioritariamente masculino? 

Sem dúvidas, pelo menos até onde sei existe um número ínfimo de mulheres fotógrafas, as que existem estão maioritariamente em Luanda e o número inclui  angolanas e estrangeiras. Conheço algumas províncias de Angola e não me recordo de ter visto mulheres fotógrafas por lá, estão concentradas em Luanda, quanto aos homens a situação é idêntica, no concerne a estarem concentrados em Luanda.

8. O que mudavas no cenário da fotografia em Angola?

Primeiramente as coisas a nível do País precisam de ser de descentralizadas. Tornar as outras cidades do País potenciais  locais para onde as pessoas gostariam de  fixar residência a partir daí Luanda deixaria de ser o único sítio onde a maioria dos angolanos  se dirige à procura de melhores condições, com isso o actual cenário da fotografia seria completamente alterado, as melhores empresas de publicidade ou de produção multimedia, audio-visual, os negócios ligados à moda, produção de eventos diversos (entretenimentos, eventos corporativos, familiares, etc), não ficariam afunilados em Luanda e isso permitiria termos os profíssionais do ramo fotográfico espalhados pelo país. Precisamos igualmente  de ter vários fornecedores de material fotográfico profissional  e de serviço especializado. Finalmente e não menos importante é preciso termos centros de formação e já agora sonhando um bocado mais alto, conseguir que se fabricasse em Angola equipamento fotográfico e afins, porque não sonhar, se até  o País é rico =)

9. Já conquistaste algum prémio de fotografia? Se sim, que impacto isso teve na tua vida?

Em 2008 ainda considerando-me fotógrafa amadora venci o prémio de imagem e fotografia do BESA (Banco Espírito Santo Angola) que como já referi anteriormente, teve um grande impacto na minha vida.

10. O que ambicionas como fotógrafa?

Posso resumidamente dizer que pretendo aprender cada vez mais e ao mesmo tempo transmitir o que sei, essencialmente de forma gratuita aos menos previlegiados que se conseguirem dar um rumo às suas vidas através daquilo que eu transmitir verei realizado um dos meus maiores sonhos e uma das minhas maiores ambições, que é mudar positivimente a vida daqueles que em algum momento  deixaram de acreditar num futuro risonho.

11. Existem fotógrafos que te inspiram? Se sim, quem são? (A nível nacional e internacional)

Definitivamente sim. Em Angola gosto do trabalho de Paulino Damião (Kota 50 ou Mestre 50), Massalo Araújo, Chilala Moco, Rui Sérgio Afonso, Kiluanji-Kia-Henda, Kamene Traça e agora que conheci mais o teu trabalho posso dizer que me sinto inspirada a explorar mais a fotografia de família. Internacionalmente gosto do trabalho de Malick Sidibé (Mali),Ian Ruhter(U.S.A), Mambu Bayoh (África Ocidental, segundo ele), João Paulo Barbosa (Brasil), Nabil Boutros (Egipto), Ash Ismael, Mauro Pinto, Luís Picolo e Wushi Jay (Moçambique), Artur Cabral (Portugal), Zeno Petersen (África do Sul), Jason W. Lee. 

12. Imaginas-te a fazer outra coisa?

Sim, várias coisas d’entre as quais destaco o vídeo, design nos mesmos moldes ou seja, de forma independente e também gostaria muito de enveredar pela docência.

13. Estás inserida em algum grupo / associação / clube de fotografia?

Online estou inserida em vários grupos de fotografia, com fotógrafos angolanos e estrangeiros, aprende-se muito nestes grupos, o intercâmbio de ideias é uma constante e posteriormente as pessoas aproximam-se fora do mundo virtual o que é sem dúvida a parte mais importante e interessante.

14. Gostas de ser fotografada? Se sim, és exigente com o resultado?

Adoro ser fotografada e sim sou exigente com o resultado.

15. Que equipamento fotográfico utilizas? 

Essencialmente material da Canon (Camera e lentes), tripé, flash, o básico, por falta de condições financeiras para aquisição de mais material que todos nós sabemos que não é nada barato. A intenção é conseguir uma posição confortável ou seja ter um mínimo de material que permita explorar e melhorar o tipo de fotografia que faço e pretendo fazer.

16. Que conselhos darias e que dicas podes dar a quem quer iniciar-se na carreira de fotógrafo?

Gostar do que faz, não fazê-lo por obrigação ou moda, gostar, pesquisar, e clicar…muito.

17. Tens algum contacto ou página na internet que gostarias de partilhar?

Tenho algumas coisas online que podem ser vistas nos seguintes links:

www.flickr.com/photos/hindhyra

www.facebook.com/hindhyraart

http://hindhyra.tumblr.com/

De seguida, alguns trabalhos fotográficos da Hindhyra.

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